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quarta-feira, 21 de abril de 2021

TIRADENTES E O MACRÓBIO HISTÓRICO

 Blog Rio Preto Noutros Tempos - por Rodrigo Magalhães*



Hoje se comemora o feriado de Tiradentes, o patrono cívico do Brasil. Ele foi preso em dez de maio de 1789, acusado de ser o principal líder da Inconfidência Mineira. Foi condenado e, em 21 de abril de 1792, brutalmente enforcado e esquartejado pelas autoridades portuguesas. Isso tudo aprendemos nas aulas de História, ainda criança. Mas o que pouca gente sabe é que Tiradentes permaneceu por alguns anos à serviço na zona da mata mineira, mais especificamente na região do Vale do Rio Preto, onde à época também atuava outro importante personagem inconfidente – José Aires Gomes.

No entanto, causa-nos ainda maior surpresa a descoberta da existência de um macróbio histórico que viveu na atual vila turística de Ibitipoca, em Lima Duarte/MG, no final do século 19. Esse senhor de idade extremamente avançada teria relatado ao Promotor Público local que, na adolescência, conhecera Tiradentes, revelando-nos detalhes e curiosidades sobre o personagem.

Boa leitura!

O caminho do Menezes

Durante todo o século XVIII, inúmeras vias alternativas ao Caminho Novo vão sendo abertas, todas, inicialmente, com a finalidade de encurtar distâncias. Uma dessas estradas construídas ainda no fim de século XVIII, “menor, mas não menos importante que suas contemporâneas e muito movimentadas estradas do ouro”, foi o Caminho do Menezes, “a segunda estrada oficial que ligaria Minas ao Rio de Janeiro”.

Antes de retornar a Vila Rica de sua viagem ao Descoberto da Mantiqueira, dom Rodrigo determinou que se construísse uma nova estrada pelas margens setentrionais do rio Preto, “que divide essa capitania da do Rio de Janeiro, e (...) se encontravam várias picadas por onde se suspeitavam passar, ou podiam passar extravios, o que tudo evitou com guardas e patrulhas, vindo assim a ficar acautelado qualquer descaminho”. E, a seguir, mandou edificar uma ponte a fim de facilitar a passagem sobre o rio Preto para os transeuntes desse caminho, exatamente na região da Povoação do Presídio do Rio Preto em que anos mais tarde se instalaria o Registro (da “Passagem do Rio Preto”).

Ainda em 1781, expediu ordens ao Comandante do Destacamento do Caminho Novo, Alferes Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, no sentido de que pudesse dar conta de suas atividades de fiscalização das obras de construção da nova estrada, que ficou conhecida como o Caminho do Menezes, em referência a esse que foi o 8º Governador e Capitão-General da Capitania de Minas Gerais, Rodrigo José de Menezes.

Quando visitou a região, constatara que, para neutralizar o extravio de ouro, seria preciso construir uma estrada à margem do lado norte do rio Preto. “Embora sua construção tenha sido tardia para seu propósito, que era dificultar o contrabando de ouro, então muito grande na região do ‘Sertão do Rio Preto’, que hoje compreende todos os municípios de Valença, Rio das Flores, Belmiro Braga, Rio Preto e Santa Rita de Jacutinga, essa estrada muito contribuiu para o desbravamento do Vale do Rio Preto, um dos principais sub-afluentes do rio Paraíba do Sul.”

O alferes Tiradentes

Esse caminho saía da Estrada Real (Caminho Novo) da “região chamada Porto do Meneses, atual Além Paraíba”, e à altura de Matias Barbosa, sempre em território mineiro, passava por Belmiro Braga, Três Ilhas, Porto das Flores, São Sebastião do Barreado e chegava a Rio Preto. Ou seja, a quase totalidade do percurso dessa importante estrada estava situada na região outrora denominada Descoberto da Mantiqueira, atual zona da mata mineira.

As fontes primárias, referentes à construção da mencionada estrada, assim como o mapa, fazem parte do valioso acervo da antiga fazenda da Rocinha da Negra, hoje denominada Cabuí, cujo acervo encontra-se em mãos de particular.

Configurou-se, assim, no segundo caminho oficial (alternativo) de ligação entre Minas e Rio, apesar de se ver na carta geográfica denominada “Mapa do Cêrtão do Rio Prêto para baixo”, de Ignácio de Souza Werneck, datado de 1808 (que se encontra na Biblioteca Nacional do Rio de Janeiro), a existência de diversos outros caminhos “auxiliares” ilegais ligando-se à Estrada Geral, como o do Pilar, do Azevedo, do Tinguá, da Estrella e da Margem do Paraíba.

Interessante notar que a vigia do rio Preto deveria mesmo ser permanente e necessária. Por ser a região uma rota propícia ao contrabando e à sonegação de impostos, visualiza-se, da mesma forma, outros três caminhos extraoficiais no mais antigo mapa da região de Rio Preto de que se tem registro. Datado de 1803, anexo ao requerimento de sesmaria das terras que se situam à margem fluminense do rio Preto, no exato território onde se assentou o limítrofe distrito de Parapeúna (Valença/RJ), iniciavam esses caminhos alternativos que partiam em direção ao Rio de Janeiro.

A missão fora designada à pessoa certa. Tiradentes tinha nove anos quando perdeu a mãe, e onze quando perdeu também o pai. Logo foi assumido pelo tio e padrinho Sebastião Ferreira Leitão que, além de minerador, era também cirurgião-dentista registrado. Foi com ele que o futuro Alferes aprendeu a sua primeira profissão. Tiradentes devia ter dezoito, talvez dezenove anos, quando conheceu muito Minas Gerais em longas viagens como tropeiro, levando e trazendo gado e mercadorias, no circuito Rio, Minas e Bahia. Conheceu a serra e o sertão, os caminhos regulares e os alternativos.

Não eram raros os momentos em que sua destreza como dentista era convocada para o trato tanto de escravos quanto de senhores. Anos depois, perante o tribunal, diria que “conhecia muita gente em razão da prenda de pôr e tirar dentes”.

Largou a vida de tropeiro em 1755, quando já conhecia Minas inteira. O governo da Capitania estava organizando o Regimento Regular de Cavalaria de Minas. A tropa paga: um exército regular, pago pelo erário, profissional. Os oficiais deveriam ser homens brancos e de boas famílias. E Silva Xavier estava entre os admitidos. Foi designado como Alferes, atual Segundo-Tenente.

No dia 19 de julho de 1781, dom Rodrigo José de Menezes, então governador da Província de Minas, mandou expedir ao Comandante do Destacamento do Caminho Novo (abrangia os territórios de Paraíba do Sul, Paraibuna, Juiz de Fora, Barbacena etc.) – o Alferes Joaquim José da Silva Xavier, na época residente na fazenda da Rocinha da Negra (hoje denominada Cabuí), em Simão Pereira – instruções pelas quais deveria reger-se. A ele estava encarregada a vigilância das margens do rio Preto.

Naquele mesmo ano que chegou ao Comando da Patrulha do Caminho Novo, Tiradentes também foi responsabilizado pela importante obra do Caminho do Menezes, porque seria essa a segunda estrada oficial que ligaria Minas ao Rio de Janeiro. E enquanto a estrada legal era aberta, Tiradentes partia acompanhado de seus soldados e de outro inconfidente frequentador da região, José Aires Gomes, pelas trilhas ilegais em busca de assaltantes. Tiradentes, que já era ligado a João Rodrigues de Macedo, também se aproximou nessa época do abastado Aires Gomes, sócio fazendeiro do contratador Macedo. 

Além da vigilância da região, consta dos registros históricos conhecidos que Tiradentes tinha como incumbência identificar possíveis minas de ouro no Vale do Rio Preto. Por esse motivo, percorreu tantas vezes essa região, onde fora incumbido de listar todos os moradores dessa zona proibida, desde a nascente do rio Preto até onde se encontra com o rio Paraibuna. E, em uma dessas passagens pela região central do Descoberto da Mantiqueira, o cavalo que Tiradentes havia escolhido para conduzi-lo por essas paragens acabou sendo levado pela correnteza das águas do rio Preto.

Alferes da tropa paga de Minas Gerais, Joaquim José da Silva Xavier, o ‘Tiradentes’, executor de mais de uma ‘ronda no Mato’, nas áreas Proibidas do Sertão de Rio Preto e do ‘Rio do Peixe’(...) fez por ordem de D. Rodrigo José de Menezes um levantamento completo dos moradores da Mantiqueira e das cabeceiras do rio Preto até sua foz no Paraibuna. Em uma das rondas, morreu um cavalo do uso de Tiradentes, que tentava atravessar o rio Preto, de Minas para a Capitania do Rio de Janeiro, em busca de pasto, tendo sido lavrado o respectivo auto de responsabilidade da baixa do animal.

Em carta de 26 de setembro de 1781, Tiradentes deu conta a dom Rodrigo da fundação do “Caminho do Menezes”, com vigilância sobre os mapas do Rio Preto. Todavia, ao que tudo indica, Tiradentes permaneceu ainda por mais alguns anos frequentando essa região até ser preso, em dez de maio de 1789, acusado de ser o principal líder da Inconfidência Mineira (foi enforcado em 21 de abril de 1792). Consta, inclusive, que Tiradentes teria se abrigado por uma noite na Fazenda São Mateus (situada em território do município de Juiz de Fora, inserido no Descoberto), quando ele viajava para a Corte, onde, dias depois, seria brutalmente enforcado e esquartejado pelas autoridades portuguesas.

Interessante notar que, ainda no ano de 1781, quando o Governador dom Rodrigo visitou essa área até então proibida e iniciou a concessão de sesmarias na região, Tiradentes foi o procurador de duas pessoas para tomar posse de “terras de cultura no novo descoberto da Mantiqueira”. As procurações eram assinadas, uma por seu irmão Padre Antônio da Silva Santos, radicado na Ressaca (Ressaquinha), e a outra pelo Tenente João Ferreira da Cunha, residente em Congonhas do Campo.

A corrida por terras na região era tão grande, pensando-se na possibilidade de obtenção do ouro, que o próprio Tiradentes recebeu uma concessão de datas minerais “nas margens do rio Paraibuna entre este e o rio Preto, na paragem Porto do Menezes”. Consta, inclusive, que José de Oliveira Fagundes, que foi o advogado de Tiradentes, também atuava nessa região, sendo que obteve uma sesmaria em Valença, em 1817.

O macróbio histórico

Perto de 1892 (ou seja, cem anos após o enforcamento de Tiradentes), a imprensa publicou uma matéria bombástica: um macróbio (pessoa extremamente antiga) habitante de Ibitipoca (distrito de Lima Duarte/MG) que “conhecera Tiradentes em Vila Rica”. Ele acrescentava particularidades à biografia de Joaquim José da Silva Xavier. Segundo ele, “o alferes costumava fazer ponto na igreja do Rosário tocando viola e cantando”, e que “mataram Tiradentes porque anunciou estas leis que estão aí governando, é assim a justiça dos homens”.

Logicamente, a notícia da descoberta de uma pessoa ainda viva em 1892, que conviveu com a geração que conheceu Tiradentes, despertou grande curiosidade. Jornais regionais de Juiz de Fora, do Rio de Janeiro e até mesmo de São Paulo buscaram maiores informações desse macróbio morador de Ibitipoca. Consta que quem fez a comunicação do fato com a imprensa foi nada menos que o Promotor de Justiça em Lima Duarte por volta de 1892, Dr. Augusto Vaz Mourão:

Vou dar-vos uma notícia de inestimável valor – um macróbio histórico. Severino Francisco Pacheco, filho de São Miguel de Piracicaba, reside nesta cidade (Lima Duarte) com 115 anos de idade. Tem os cabelos pretos e as barbas apenas grisalhas; é de estatura mediana e quem o vir passar nas ruas, e não conhecendo, não pode presumir que tenha mais da metade da idade que atesta, passo firme e corpo perfilado. É Pacheco casado em terceira núpcias com uma menina de 60 anos, em relação a si; somente do primeiro matrimônio houve três filhos, tendo falecido há pouco o seu morgado (?) com 80 anos de idade e que na aparência representava ser mais velho do que o pai. Pacheco faz ainda algum serviço concernente a seu ofício de seleiro, profissão esta que tomou logo que retirou-se da praça. Diariamente ouve todas as missas que são ditas na matriz, e de joelhos toda a missa, sem apoiar-se em encosto algum.

Pacheco foi nos tempos coloniais praça de cavalaria do segundo regimento em Ouro Preto, em cujo posto permaneceu até a primeira viagem de Pedro I a Minas, a quem veio encontrar em Barbacena, como cabo de parada, dando pouco depois sua baixa. Pacheco conheceu de perto o Tiradentes, com quem esteve diversas vezes em Ouro Preto, no largo do Rosário, em uma casa que Tiradentes frequentava para tocar violão e cantar modinhas no que era perito: diz Pacheco que tinha 14 ou 15 anos quando ouviu Tiradentes tocar violão.

Pacheco tem gravado na memória o físico de Tiradentes, como mais de uma vez me tem referido: homem alto, simpático, bonito e gênio alegre são os traços que dá Pacheco ao Tiradentes.


FONTES:

ARQUIVO PÚBLICO MINEIRO. Seção Colonial, Códice 224, fls.63;66v-70.

BRAGA, Diva Maria Portugal. O Prefeito do Centenário: Guilherme Furtado Portugal.

DELGADO, Alexandre Miranda. Memória Histórica sobre a Cidade de Lima Duarte e seu Município.

DORIA, Pedro. 1789: A história de Tiradentes e dos contrabandistas, assassinos e poetas que lutaram pela independência do Brasil.

IÓRIO, Leoni. Valença de ontem e de hoje: Subsídios para a história de Valença.

LAMANNA, Rita Maria Souza Lima Leal. Rio Preto, nossa história.

MAGALHÃES, Rodrigo. Descoberto do Rio Preto – O Sertão Prohibido do Rio Preto.

RESTITUTTI, Cristiano Corte. As Fronteiras da Província: Rotas de Comércio Interprovincial (Minas Gerais, 1839-1884).

Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais. Belo Horizonte, vol. XVI,

1975.

SEBRAE. Os caminhos do café.

*Rodrigo Magalhães, pesquisador e historiador riopretano

Um comentário:

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