BLOG RIO PRETO NOUTROS TEMPOS - por Rodrigo Magalhães*
A
história da cidade de Rio Preto, sita na zona da mata mineira, na sua origem, é a história das catas de
ouro pelos ribeirões e córregos que cortavam a região montanhosa dos matos gerais
dos índios Coroados. É uma história sobre a qual sobram mitos e, com relação
aos primórdios, os fatos realmente conhecidos são poucos.
Há, todavia, uma impressionante tragédia ligada à fase da corrida do ouro por essas
paragens, que mereceu registro na História Regional do Brasil. Trata-se de um episódio que a tradição oral local denomina de O Córrego das Almas. Essa trágica anedota teria ocorrido no final
dos anos 1700, logo após os colonizadores terem descoberto ouro em grande
quantidade no rio Preto, no exato local onde havia surgido a povoação chamada à
época de Presídio do Rio Preto.
Descendo
o rio Preto, nas proximidades do local denominado Porto dos Índios, esses
mineradores começaram a ocupar uma porção de terras situadas um pouco acima da
foz de um ribeirão, onde os índios Coroados indicaram que havia “pó amarelo”
(ouro). Começa então uma corrida para se minerar no curso d’água chamado de Ribeirão
Conceição, desde a sua nascente, passando pelos ribeirões Santa Delfina e Sant’
Anna, que nele deságuam, até a barra no rio Preto.
Conta-se
que, com o tempo, perceberam que em um pequeno córrego situado nas proximidades
do ribeirão Conceição, era grande a quantidade de lavras de ouro a serem
exploradas. A notícia rapidamente teria se espalhado, dando início a uma intensa
corrida pelo ouro, mobilizando centenas de mineiros que, mal o sol despontava,
encaminhavam-se com seus escravos (indígenas e africanos) para o córrego resplandecente
e amontoavam o lugar.
Lavras
de céu aberto
Concentraram-se,
então, quase todos naquele local específico, onde iniciaram uma exploração desenfreada.
E quando o ouro começou a se esgotar no córrego, cuja mineração se processava
com a bateia, os mineradores passaram a usar a mineração nas serras e nos
morros das proximidades, onde se encontravam os veios auríferos. Passaram a
praticar, assim, a arriscada mineração de céu aberto.
Para
atingir o veio aurífero, retiravam montes de terra que o recobriam, protegendo
as ribanceiras com madeiras usadas como arrimo, a fim de poder atingir o fundo
sem perigo. À medida que penetravam em profundidade, eles eram obrigados a
alargar as bordas dessas imensas escavações, cujas jazidas, costumeiramente tinham apenas alguns decímetros. Com o aumento do espaço vazio, ocorriam frequentes e perigosos
desabamentos.
De
acordo com a tradição oral regional preservada por esses mais de duzentos anos,
a mineração ali somente teria terminado em decorrência de um desses
desabamentos, um trágico acidente que teria vitimado dezenas de pessoas.
Assim
registrou esse desastre de grandes proporções na obra História Regional do Brasil, o riopretano doutor Henrique Furtado
Portugal, membro efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais:
“A tradição oral informa que a mineração de ouro terminou por minguarem os veeiros e por um acidente trágico que enterrou mais de 200 homens, entre brancos, índios e escravos num grande fosso escavado às margens de um pequeno córrego, afluente da margem esquerda do ribeirão da Conceição, pequeno e atrevido curso d'água que passou a ser chamado 'Córrego das Almas', muitos se benzem quando por ali transitam, principalmente à noite”.
E
desta maneira surgiu, a partir desta hecatombe, uma das lendas mais duradouras
da história da mineração do ouro no Vale do Rio Preto!

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