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quarta-feira, 11 de janeiro de 2023

COLÔNIA MINEIRA DE PINDAMONHANGABA: HISTÓRIA E SUBSÍDIOS À GENEALOGIA!

 Blog Rio Preto Noutros Tempos, por Rodrigo Magalhães*


Pindamonhangaba/SP, década 1920 (Foto de Internet)


Há quase cem anos um jovem riopretano deixou a sua terra natal e rumou sentido à Pindamonhangaba, município situado no Vale do Paraíba do estado de São Paulo. Com muito trabalho, tornou-se um abastado fazendeiro, político e benemérito da localidade, para onde no decorrer dos anos migraram dezenas de riopretanos, fundando-se, assim, a “Colônia Mineira de Pindamonhangaba”, denominada desta maneira, oficialmente, por lei municipal desde 2003.

O jovem riopretano que atraiu muitos conterrâneos e possibilitou-lhes melhores condições de vida em ‘Pinda’ se chamava Manoel Canuto Vieira - o Mané Canuto. Mas ele não foi o primeiro riopretano que se transferiu para aquelas paragens paulistas. Antes dele, membros das famílias Machado e Pereira já haviam se estabelecido por lá, onde ainda hoje residem, além destas, integrantes de outras tradicionais famílias dos municípios de Rio Preto/MG, Santa Rita de Jacutinga/MG, Santa Bárbara do Monte Verde/MG e Valença/RJ, tais como: Maia, Andrada, Almeida, Lopes, Alonso, Cunha, Paço, Lima, Cota, Oliveira, Silva, Damasceno, dentre outras.  

Nesse artigo conheceremos a interessante história desses valeriopretanos que no início do século XX foram tentar (re)fazer a vida no Vale do Paraíba paulista, bem como da Colônia Mineira de Pindamonhangaba, das famílias que a integram e de seus respectivos patriarcas – enfim, um interessante subsídio à genealogia regional!

***

Sepultura de Francisco Alves Martins, em Taubaté/SP
Foto cedida por Pedro Morais Neto (Arquivo Familiar)

Os Pereira

Em meados de 1870, com o esgotamento das terras, o movimento abolicionista e a produção cada vez maior do Oeste paulista, acontece o início da decadência da cultura cafeeira de Pindamonhangaba, que se extinguiu no final da década de 1920, não tendo resistido aos golpes produzidos pela exaustão das terras, a libertação dos escravos e a crise econômica mundial. A partir daí Pindamonhangaba passa por mais um de seus graves períodos de estagnação econômica.

Com a chegada de algumas famílias vindas principalmente de Minas Gerais, a economia de Pindamonhangaba passou a se apoiar na constituição de uma importante bacia leiteira, em extensas culturas de arroz e na produção de hortigranjeiros. Foi uma época de pequeno crescimento econômico, que se estendeu até o final da década de 1950, quando o município entrou no ciclo pré-industrial, com o beneficiamento de produtos agropecuários, principalmente o arroz e o leite, movimentando a economia local[1].

Antes de Mané Canuto, foi um cunhado seu chamado José Alves Pereira o primeiro a migrar para o estado de São Paulo, instalando-se em Tremembé. Conforme informado pelo colaborador Pedro Morais Neto (advogado domiciliado em Pinda e tataraneto de José Pereira), Mané Canuto teria ido a Tremembé na década de 1920 para batizar um filho deste seu cunhado, quando decidiu também se mudar para o interior paulista.

Família Alves Pereira - início do século XX
Arquivo Familiar, de Hélio Tadeu Alves Pires (neto de Mané Canuto)


Mané Canuto já era envolvido com política em Rio Preto, juntamente com os parentes da esposa dele, tia Júlia, que só foram para Pinda depois que perderam a política no Rio Preto” - recorda José Felício Vieira Júnior (conhecido por ‘Zezinho’, aposentado, morador da Fazenda Morro Redondo, na zona rural de Valença), um dos netos mais velhos de Sebastião Felício Vieira (irmão de Manoel Canuto Vieira), que por alguns residiu em companhia do avô para estudar na Escola Normal de Rio Preto. 

Ele também confirma a hipótese de que o Mané Canuto não teria sido o pioneiro em Pinda: “O tio Manoel foi para Pinda por influência desses parentes da mulher dele, que já estavam por lá já há alguns anos”.

E com o passar dos anos, Mané Canuto se tornou um abastado fazendeiro, influente político e grande benfeitor em Pindamonhangaba. Ele era casado com Júlia Alves de Jesus, irmã de José Pereira.


Assinatura de Domicianno Martins Pereira - meados séc. XIX
Arquivo Familiar de Rodrigo Nunes da Silva 

Domiciano Pereira, o patriarca

Domiciano Martinz Pereira era um dos nove filhos de Francisco Pereira da Silva e Luciana Maria de Jesus, moradores do Rio do Peixe (atual Lima Duarte), então distrito de Barbacena.

Na segunda metade do século XIX, Domiciano Pereira se mudou para o vizinho município de Rio Preto. Adquiriu a Fazenda São Bento, nas proximidades do Araxá, hoje na zona rural de Santa Bárbara do Monte Verde, na época distrito de Rio Preto.

Conforme consta de interessante documento gentilmente fornecido pelo colaborador Rodrigo Nunes da Silva (militar, domiciliado em Barroso/MG, tetraneto de Domiciano), Domiciano Pereira se tornou uma figura de destaque no então arraial de Santa Bárbara do Monte Verde, onde aos 12 de julho de 1863 já fazia parte do restrito grupo que formava o Partido Liberal local, inclusive como eleitor.[2]  

Ele se casou com Anastácia Adriana de Jesus no dia trinta de janeiro de 1854. A mãe de Anastácia – Anna Thereza de São Pedro, era filha do casal João Alves Garcia e Anastácia Adriana de Jesus, residentes há muitos anos em Rio Preto (Fazenda Sant’Anna), ambos grandes benfeitores da imponente Matriz de Nosso Senhor dos Passos. O capitão João, inclusive, construiu às suas próprias expensas a capela da majestosa igreja que hoje é o cartão postal mais icônico da cidade.

Domiciano faleceu na Fazenda São Bento, em 1898, e está sepultado no cemitério do Araxá, lugarejo visitado recentemente por Rodrigo Nunes que, infelizmente, não logrou êxito em localizar o túmulo de seu tetravô.


Certidão de Óbito de Domicianno Matinz Pereira
Arquivo Familiar de Rodrigo Nunes da Silva


Dos filhos de Domiciano e Anastácia destacamos Francisco Alves Pereira (ou Martins), nascido em Rio Preto em 1853, casado com Maria do Carmo. Por sua vez, dos filhos deste casal apenas três permaneceram em Rio Preto: Augusto Alves Pereira (casou-se com Izaura de Oliveira), Maria Alves de Vieira (casou-se com Sebastião Felício Vieira) e Belmira Alves Machado (casou-se com Francisco José Machado).

Os demais filhos migraram para o interior paulista, com destaque para José Alves Pereira, capitão Avelino Alves Pereira e Júlia Alves Canuto, casada com o Manoel Canuto Vieira.


Jornal Correio Mercantil, 1863
Arquivo Familiar de Rodrigo Nunes da Silva

Os Machado

Guilhermina Maria do Espírito do Santo, outra filha do casal Domiciano e Anastácia, casou-se com Antônio Luiz Machado, que por sua vez era irmão de Francisco José Machado, casado com Belmira Alves de Jesus.


Belmira Alves Machado, a "Mãe Belmira"
Arquivo Familiar, de Rogério Lima Machado


Deste último casal, por sua vez, descende José Pereira Machado, conhecido em Rio Preto por ‘Juca da Belmira’, fazendeiro, político e personagem de destaque no município, onde hoje residem muitos de seus descendentes. "Ele ficou órfão com 15 anos, e com essa idade assumiu a Fazenda Barro Branco. Ele tirava leite, fazia queijo e mandava de trem para vender no Rio de Janeiro. Ele teve os 12 filhos no Barro Branco. Depois de muita luta é que ele comprou a Fazenda Bolívia, no Barreado, onde com a ajuda dos filhos conseguiu melhorar de vida. E foi na Bolívia que meu avô Juca conseguiu essa proeza, que até hoje a gente não consegue imaginar, um homem só, tirando leite e criando boi conseguisse que cada filho herdasse uma fazenda" - relata o que sempre ouviu dos familiares José Rogério Lima Machado (neto de Juca da Belmira, empresário, morador de Rio Preto).


Juca da Belmira e dona Altina
Arquivo Familiar, de Rogério Lima Machado

 

Antônio Luiz e Francisco José eram filhos de Manoel Luiz Machado (nascido em 1838, filho de João Luiz Machado). Criado na região de Rosário de Minas, ainda jovem veio para o município de Rio Preto, adquirindo a Fazenda Barro Branco (São Cristóvão). Era casado com Umbelina Maria do Carmo, que faleceu em 07/06/1920 na Fazenda Barro Branco.

Manoel Luiz era irmão de Joaquina Euquéria de Jesus, casada com Francisco José do Carmo Júnior. Um dos filhos desse casal se chamava José Luiz Machado, casado com Maria Joaquina da Fonseca, dos quais descendem Rita de Fonseca Rodrigues e Silvino Pereira Machado[3].


Fazenda Barro Branco - início do séc. XX
Arquivo Familiar, Rogério Lima Machado


Silvino Pereira Machado, o patriarca

Rita de Fonseca Rodrigues era casada com Camillo Rodrigues de Oliveira, e um de seus filhos chamado Francisco Rodrigues migrou ainda jovem para o Vale do Paraíba paulista. Um filho deste último – Salathiel Rodrigues da Fonseca, inclusive se casou com uma das filhas de Mané Canuto, chamada Izaura Canuto da Fonseca, e certa época cuidou das fazendas do sogro.

Mas foi Silvino Pereira Machado quem, aparentemente, foi o pioneiro da família no Vale do Paraíba paulista. “Relativamente moço ainda, mas já casado e com filhos, mudou-se para São Luis do Paraitinga, interior do Estado de São Paulo, cidade próxima do Vale do Paraíba, em cujo município comprou a Fazenda Rio Claro, excelente propriedade rural, tanto pela qualidade das terras como pela topografia e casa sede, imóvel ora pertencente a seu neto Geraldo Guido Machado. Com o passar do tempo, adquiriu outras propriedades e, ao falecer, deixou uma fazenda para cada filho. Era um homem muito trabalhador e que desfrutava de elevado conceito na região – onde reside hoje toda a sua descendência, aí incluídas as cidades de Taubaté e Pindamonhangaba[4].


Capitão Francisco Felício Vieira (falecido em fev./1913) ao centro, sentado.
 Também os filhos Rogério Felício, Sebastião Felício e Manoel Canuto.
Foto do início do séc. XX, cedida por Fabrício Le Draper Vieira (Arquivo Familiar). 

Os Felício Vieira

Rio Preto, Minas Gerais, 1892. O mês de setembro chegava ao fim, quando Alice Josephina de Souza entrou em trabalho de parto. A jovem mãe dava à luz novamente - seu quinto filho com Francisco Felício Vieira, abastado fazendeiro e negociante de Conceição do Monte Alegre, próspera povoação pertencente ao município de Rio Preto, na zona da mata mineira. Ele já tinha um filho do seu primeiro matrimônio – Rogério Felício Vieira, com Anna Augusta de Souza, irmã de Josephina, que falecera em 1884 com apenas 23 anos.   

Era a terceira menina do casal. Mas desta feita algo saiu errado, e a jovem genitora faleceu no parto, quando contava com 26 anos. Viúvo pela segunda vez, Francisco Felício Vieira, a fim de homenagear a finada esposa, colocou o nome da mesma na filha recém-nascida[5]!

Em relação aos dois meninos do casal, o primogênito se chamava Sebastião Felício Vieira, então com seis anos, e o outro era Manoel Canuto Vieira – o Mané Canuto, com apenas um ano de idade.


Igreja de Conceição do Monte Alegre (início do séc. XX)
Acervo do Museu Regional de Rio Preto


Miguel Felício, o patriarca

Eles descendiam de Miguel Felício Rodrigues da Costa, um abastado cafeicultor de Rio Preto da primeira metade do século XIX. Era proprietário da Fazenda Paraizo e possuía morada de casas na cidade de Rio Preto.

Miguel Felício se casou em primeira núpcias com Marcelina Roza de Jesus, com quem teve dois filhos: Marcolino Rodrigues da Costa e Maria Marcolina da Luz. Em meados de 1847 ela faleceu[6], e Miguel Felício se casou com sua cunhada, Rozalina Carolina de Jesus, com quem teve mais quatro filhos: Cândida, Miguel, Francisco (pai de Mané Canuto) e Antônia.

Aos 23 de dezembro de 1858 faleceu Miguel Felício. À época ele também era proprietário de metade da Fazenda da Conceição, uma antiga e extensa propriedade rural que deu origem ao povoado de Conceição do Monte Alegre, onde ele possuía “casa com rancho para negócio”[7].

Em 1860 a “viúva de Miguel Felício” ainda aparecia na relação dos maiores produtores de café do município de Rio Preto[8].

A forte ligação da família “Felício Vieira” com o Vale do Rio Preto se mantém até os dias atuais, onde muitos dos seus descendentes ainda habitam, especialmente nos municípios de Rio Preto/MG e Valença/RJ. Notadamente devido à figura de Sebastião Felício Vieira, personagem de destaque em Rio Preto, que ao lado do 'sobrinho' Juca da Belmira (filho da ‘mãe Belmira’, que era irmã da esposa do Sebastião Felício – ‘dona Zinha’, bem como da esposa de Mané Canuto – ‘Júlia’) eram os dois principais fazendeiros do período no município de Rio Preto, onde participaram ativamente da vida política e econômica da cidade.

De acordo com um bisneto que pesquisa a vida de seus antepassados com zelo, Sebastião Felício era muito trabalhador e tinha bom tino para os negócios. Ele teria deixado por herança uma fazenda para cada um de seus sete filhos na região compreendida entre Pentagna e Conservatória, no município de Valença. "Eram sete irmãos em propriedades que acabavam se encontrando. Eu sou bisneto dele e ainda hoje estou na posse de uma dessas fazendas. Conseguiu tudo isso com muito trabalho, criando boi. Tenho muito orgulho disso e, por esse motivo, fiz questão de colocar 'Felício' no meu sobrenome, como o meu bisavô e os ascendentes dele" - revela o colaborador Marcos Alexandre Pentagna Felício Vieira (bisneto de Sebastião Felício, Oficial de Justiça e pecuarista, domiciliado em Valença). "E no Rio Preto também deixou fazendas e casas para as suas filhas", completa Marcos Alexandre.


Lápide localizada dentro da igreja de Conceição do Monte Alegre
Arquivo familiar, de Marcos Alexandre P. Felício Vieira
   

E a marca mais emblemática desse elo se encontra dentro da antiga igreja do povoado de Conceição do Monte Alegre, hoje pertencente ao município de Santa Bárbara do Monte Verde/MG, onde Miguel Felício da Costa – neto do patriarca da família, foi sepultado. E na lápide de mármore branco aparece registrado: “Aqui jaz os restos mortaes de Miguel Felício da costa, benfeitor desta capela...” 


Vista panorâmica do povoado de Conceição do Monte Alegre (início séc. XX)
Acervo do Museu Regional de Rio Preto

        

Mané Canuto Vieira e a Colônia de Pinda

Manoel Canuto Vieira, natural de Rio Preto/MG, chegou a Pindamonhangaba em 1925, época que adquiriu a então Fazenda Amarela. “Parece-me que foi mais ou menos isso: o Manoel veio batizar um dos filhos do José. Ouviu dizer que tinha umas terras boas e baratas por aqui, gostou da região e então comprou a Fazenda Amarela, aqui em Pinda” – conta o advogado Pedro Morais Neto, recordando-se de uma conversa que tivera com o senhor Luiz Carlos, neto de Mané Canuto Vieira. Pedro faz questão de contar que ainda hoje, com muito prazer e alegria, sempre que lhe é possível visita Rio Preto em companhia de sua avó Maria Luíza (83 anos), ocasião em que se hospedam na Fazenda da Glória (Parapeúna), propriedade rural que ainda hoje pertence aos descendentes de Benedito Pereira (filho de Augusto Pereira, cunhado de Mané Canuto).

Família Canuto Vieira - século XX
Arquivo Familiar, de Hélio Tadeu Alves Pires (neto de Mané Canuto)


Segundo a justificativa do projeto de lei mencionado, Mané Canuto “com muito trabalho e dedicação prosperou, adquirindo outras propriedades e, com o tempo, trazendo de Minas Gerais os parentes, tornando-se assim, o patriarca da Colônia Mineira de Pindamonhangaba. Dentre os que foram trazidos podemos citar: Quincas Pereira, Neneca, Aristóteles da Fonseca (Toto), Capitão Avelino, os Pereiras, os Maias, os Andradas, os Almeidas, os Lopes, os Alonsos e os Canuto Vieira”.




E continua: “Suas primeiras núpcias foram contraídas com Maria Alves Vieira com quem teve 15 filhos; viúvo, casou-se pela segunda vez com Maria Benedita Moreira com quem teve 6 filhos.

Homem muito estimado e respeitado pela sua honestidade e simplicidade, elegeu-se como um dos vereadores mais votados na eleição de 1948. Honrou seu mandato e muito ajudou o município, que atravessava época difícil, com poucos recursos. A Prefeitura graças à ajuda de muitos fazendeiros por ele encabeçados contribuíram e muito para a compra de maquinário e doação de combustível para a abertura e manutenção das estradas do município...

O saudoso Monsenhor João José de Azevedo — Pe. João, dizia sobre ele: "gente boa e abençoada. Que seriam das obras da Igreja, das festas e dos leilões de gado se não fosse seu Mané Canuto e a Colônia Mineira".

Manoel Canuto Vieira
Arquivo Familiar, de Hélio Tadeu Alves Pires (neto de Mané Canuto) 


Nunca negava ajuda a quem o procurava, prova disso é que em certa ocasião 36 órfãos do educandário do Frei Reinaldo haviam sido despejados. Procurado por este, mandou imediatamente buscar aquelas pobres crianças e os frades que acolheu todos em sua Fazenda Amarela durante 6 meses, dando a eles todo o conforto e fartura. Preocupado com o destino daquelas crianças, fez doação de uma significante área de terra para a construção do hoje, colégio São Judas Tadeu. Homem de muita fé, contribuiu com doações para instituições de caridade, fez a doação do terreno para a Igreja dos Martins, para a Igreja do Ribeirão Grande, para a Escola do Mandú, e ainda doou pedras para a pavimentação da Rodovia Pindamonhangaba — Campos do Jordão em toda a sua extensão e parte da Rodovia Pindamonhangaba — Ribeirão Grande, muito contribuindo para o desenvolvimento da agropecuária da região.

Recebeu o título de cidadão Pindamonhangabense, justa homenagem a este benemérito e honrado cidadão. Pai carinhoso, hoje se orgulharia do tamanho de sua família, são ao todo: 90 netos, 130 bisnetos e 28 tetranetos”.

Por tudo isso a Câmara de Vereadores de Pindamonhangaba, no uso de suas atribuições legais, aprovou por unanimidade a seguinte Lei: “Art. 1° - Fica denominada de "MANOEL CANUTO VIEIRA" — "Mané Canuto", a Estrada que inicia-se na Rodovia Caio Gomes Figueiredo, passando em frente a Fazenda Amarela, até o final do trecho, no Bairro do Mandu”. Também um logradouro daquela cidade, sita no Residencial Ouro Verde, é denominado de ‘Rua Vereador Manoel Canuto Vieira’.





*Rodrigo Magalhães, pesquisador e historiador riopretano.


[1] http://www.triprural.org.br/pindamonhangaba-sp-lugar-onde-se-faz-anzois/

[2] JORNAL CORREIO MERCANTIL, julho de 1863. Arquivo Pessoal de Rodrigo Nunes da Silva.

[3] GENEALOGIA DE MACHADOS E FONSECAS – SÉCULOS XVIII E XIX, de Raymundo da Fonseca, 1994.

[4] Idem.

[5] ARQUIVO MORTO DA COMARCA DE RIO PRETO. Inventário de Alice Josephina de Souza. 2º Ofício, 26/10/1892. Arquivo pessoal de Rodrigo Magalhães.

[6] ARQUIVO MORTO DA COMARCA DE RIO PRETO. Inventário de Marcelina Roza de Jesus. 2º Ofício, 30/06/1847. Arquivo pessoal de Rodrigo Magalhães.

[7] ARQUIVO MORTO DA COMARCA DE RIO PRETO. Inventário do Alferes Miguel Felício Rodrigues da Costa. 2º Ofício, 12/02/1859. Arquivo pessoal de Rodrigo Magalhães.

[8] ALMANACK LAEMERT. Rio de Janeiro, 1860.



domingo, 8 de janeiro de 2023

A CASA DA MOEDA FALSA DE RIO PRETO (SÉC. XVIII)

 Blog Rio Preto Noutros Tempos – por Rodrigo Magalhães*




Recebi recentemente de um amigo pesquisador um documento de inestimável valor histórico para toda a região do Vale do Rio Preto. Marcos Paulo de Souza Miranda, sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de Minas Gerais, localizou nos acervos do Arquivo Público Mineiro uma verdadeira joia para a nossa historiografia. Trata-se de um documento datado de 1804, cujo teor confirma que existiu uma Casa da Moeda Falsa muito antiga em Rio Preto (já existia antes de 1780 - sec. XVIII). Com o título - “INFORMAÇÃO DE SERVIÇO QUE FAZ O INTENDENTE DA VILA DE SÃO JOÃO DEL-REY AO GOVERNADOR, sobre a devassa feita no distrito do Rio Preto, em um sítio onde se encontrou moedas falsas muito antigas, sendo estas recolhidas à Tesouraria Geral”[1] – o registro é um lastro documental (fonte fidedigna) que insere o município de Rio Preto definitivamente no contexto histórico do ciclo do ouro no Brasil!

Casas Clandestinas de Fundição

    Foi no fim do século XVII que se revelou em Minas Gerais a ocorrência de ouro. E Portugal exerceu sobre a exploração do ouro grande controle, criando para esse fim vários mecanismos, como a Intendência de Minas e as Casas de Fundição. A primeira tinha a função de distribuir terras para a exploração do ouro, fiscalizar e cobrar impostos. As Casas de Fundição, por sua vez, eram locais em que todo o ouro encontrado nas minas eram transformados em barras para facilitar a cobrança de impostos durante o ciclo do ouro. 

    Em 1719 foi instituída a nova lei do quinto que determinava a instalação de Casas de Fundição nas Minas Gerais e proibia a circulação de ouro em pó, que era facilmente contrabandeado. Nas Casas de Fundição o ouro seria fundido, transformado em barras, cunhado com o selo real e deduzido a quinta parte correspondente ao imposto. O ouro só poderia circular após passar por todo aquele processo fiscal.

    O município de Rio Preto, sito na zona da mata mineira, foi palco de um curioso episódio relacionado a esse sentimento de rigor tributário em contraponto com a sonegação, que é a instalação de uma casa clandestina de fundição de moedas (ou lingotes circulares de ouro), na segunda metade do século XVIII, também chamada de “Fábrica de Moedas falsas”, que faria o mesmo papel das casas oficiais, contudo a custo menor. Os cunhos provavelmente haviam sido roubados de outras casas de fundição e a moeda ali produzida foi chamada de falsa pelo fato de que o ouro não era fundido ou “quintado” nas Casas de Fundição Reais.

    Em todo o estado de Minas Gerais são raríssimos os documentos (idôneos) que demonstram o funcionamento de Casas de Moedas Falsas, como a que existiu em Rio Preto entre a segunda metade do século XVIII e o início do século XIX. A pioneira e mais famosa dessas casas clandestinas de fundição de ouro ficava no atual município de Moeda. Conhecida atualmente por Casa de Moeda Falsa do Paraopeba ou Fábrica do Paraopeba, é um sítio arqueológico remanescente de uma fundição clandestina de moeda que funcionou durante o auge do ciclo do ouro no século XVIII na antiga Capitania de Minas Gerais. A casa fundia e cunhava moedas com equipamentos roubados de casas de fundições oficiais do Rio de Janeiro e cobrava um "imposto" menor que o quinto do ouro cobrado pela Coroa portuguesa.


Ruínas da Casa de Moeda Falsa do Paraopeba/MG
(Foto de Internet)

    A fábrica era altamente fortificada com armamento bélico, que a mantinha protegida de forasteiros e vizinhos curiosos. Explica a historiadora Luana Martins, através de informação retirada da Revista do Arquivo Público Mineiro, que o trecho mais próximo àquela antiga Fábrica foi chamado de “Fortaleza”, pois, segundo relatos, diante da aproximação dos possíveis “clientes”, eram emitidos sinais com tiros de trabucos.[2]

    A fortificação, além de ser belicamente protegida, localizava-se em posição estratégica, nos contrafortes da vertente ocidental da então chamada Serra do Paraopeba, escondida dos caminhos novos da Estrada Real que passavam pelo outro lado da serra e conduziam o ouro produzido nas principais minas de Vila Rica, Mariana e Sabará e por onde passavam os ouvidores a serviço da Coroa.

    A fábrica funcionava com trabalho de aproximadamente cem homens de diversas origens, inclusive antigos funcionários da administração portuguesa na América, e era comandada por Inácio de Souza Ferreira. Outro fato interessante é um “Regulamento” criado por Ignácio Ferreira, líder do grupo, que descreviam as atividades no cotidiano da casa de fundição e as severas medidas disciplinares que eram impostas a quem ousasse desobedecer. O documento previa pena de morte para quem saísse das instalações da fábrica sem o consentimento.[3]  

    Essa casa de fundição foi desativada ainda no século XVIII e, atualmente, encontra-se em ruínas. Foi essa fabricação clandestina de moeda que deu origem ao atual topônimo da Serra da Moeda, bem como ao município mineiro de Moeda.



Casa da Moeda Falsa de Rio Preto

    Antes do ciclo do ouro, o território que atualmente pertence ao município de Rio Preto já era habitado pelos índios Coroados (denominou-se genericamente Coroados a todos eles, não obstante serem parte de diversas sociedades indígenas, todas linguisticamente vinculadas à família Puri-Coroado) e denominava-se Sertão do Rio Preto. 

    Devido a sua localização estratégica - situado entre as Estradas Reais (‘Caminho Velho’ e ‘Caminho Novo’) que abrigavam postos fiscais de fiscalização e de arrecadação do quinto, essa região foi muito utilizada como rota de contrabando do ouro que saía das minas gerais com destino aos portos do Rio de Janeiro. Por essa razão, em 1755, quando se descobriu que algumas pessoas teriam aberto picadas que cruzavam aqueles sertões e lá habitavam, o governador interino José Antônio Freire de Andrada (2º Conde de Bobadela) publicou um Bando confirmando “os sertões do distrito da Mantiqueira” como 'árias prohibidas'.

    Assim, a escolha do território do atual município de Rio Preto para se instalar uma fábrica clandestina de fundição de ouro não foi ao acaso: além de se situar em uma rota clandestina, cujo percurso entre as minas e os portos era mais curto e livre de fiscalização, a região era declarada oficialmente como área proibida, onde não era permitido povoar e nem mesmo transitar.



    Interessante observar, no entanto, que na segunda metade do século XVIII a mineração já havia entrado em decadência com o esgotamento das jazidas na principal região aurífera de Minas Gerais, onde ficavam as chamadas Vilas do Ouro - Ouro Preto, Mariana, Serro, Caeté, São João del-Rei, Pitangui, Sabará e São José do Rio das Mortes. Por essa razão, podemos supor que a Casa da Moeda Falsa de Rio Preto pode ter sido instalada na primeira metade dos anos 1700. Mas certamente o grande lapso de tempo que a mesma permaneceu em funcionamento se deve ao fato do descobrimento de grande quantidade de ouro no Vale do Rio Preto por volta de 1780, conforme atestam diversos documentos. 

    A região passou a ser chamada então de Descoberto do Rio Preto, e o ouro achado fartamente no leito do rio Preto e em seus afluentes atraiu muitos povoadores, que rapidamente se estabeleceram clandestinamente naquele sertão até então vedado. Por esse motivo, em 1780 o governador de Minas Gerais decidiu abrir a região à mineração e ao povoamento, distribuindo as primeiras sesmarias e datas minerais. Mas os ‘gentios bravios’ que habitavam aquele território há pelo menos 150 anos resistiram, e os detentores dessas posses legais não lograram êxito em se estabelecerem por essas paragens, uma vez que suas fazendas e plantações eram atacadas frequentemente pelos indígenas.

    Como podemos vislumbrar agora, uma exceção foi a Casa de Fundição de Ouro que se instalara em Rio Preto na segunda metade do século XVIII, de forma clandestina, e se manteve em funcionamento na região até 1804, quando finalmente os proprietários e funcionários foram descobertos e presos. Isto porque, demonstrando preocupação com o afluxo populacional na região, em 24 de março de 1801 a Câmara da Vila de São João del-Rei havia proposto a criação de dois distritos no “Sertão e Descoberto do Rio Preto”, para “remediar as desordens que se verificavam na região, catequizar os gentios e aumentar a arrecadação de tributos”.[4]


Ruínas da Casa de Pedra - Rio Preto/MG
Foto: Igor Alecsander

Casa de Pedra

    Os falsificadores de moedas certamente tiveram sucesso nessa empreitada criminosa devido à forte estrutura bélica da casa que erigiram no outrora Sertão Proibido do Rio Preto. Trata-se possivelmente das ruínas conhecidas atualmente como ‘Casa de Pedra’, patrimônio histórico tombado pelo município e consolidada como um dos cartões postais mais icônicos e visitados de Rio Preto.

    Situada nas proximidades de Santo Antônio das Varejas, na zona rural do município de Rio Preto, possui uma estrutura monumental, grande e feita de pedra e alvenaria, seguindo um modelo básico que se manteve ao longo dos séculos para os fortins, de planta quadrangular. Os vestígios remanescentes constituem uma área construída de cerca de 50 m² (9,00 m x 5,55 m); as paredes possuem espessura de 0,80 m; a altura interna varia entre 3,70 e 3,90 m e, na área externa, notam-se paredes com mais de 4,00 m de altura.

    A casa em que possivelmente funcionava a fundição clandestina de ouro em Rio Preto possuía duas grandes janelas frontais que se parecem com duas baterias de artilharia, pois apresentam um afunilamento nas laterais (de dentro para fora); são grandes aberturas verticais, e se parecem com aquelas utilizadas na arquitetura militar como vão de observação, vigia e tiro. Esse detalhe arquitetônico sugere que essas janelas foram construídas para receber artilharia leve, mas também pequenos canhões, dispostos para guarnecer o portão de entrada, permitindo aos vigias, assim, maior visibilidade e dando-lhes mais proteção contra os indígenas, os curiosos e as tropas e patrulhas a serviço da Coroa portuguesa.

    Dentre tantas serventias atribuídas à Casa de Pedra pela tradição oral ao longo dos anos – 'Fortim Bandeirante', 'Casa Forte', 'Fortaleza Militar', etc. – a função de ‘Casa Clandestina de Fundição de Ouro’ já havia sido citada por moradores antigos da localidade, mas sem qualquer lastro documental que amparasse tal possibilidade.





Documento Histórico

    Eis o teor do documento, que se encontra no Arquivo Público Mineiro, em Belo Horizonte, no Fundo “Secretaria de Governo da Capitania”, na Seção Colonial (:

“INFORMAÇÃO DE SERVIÇO QUE FAZ O INTENDENTE[5] DA VILA DE SÃO JOÃO DEL-REY AO GOVERNADOR, sobre a devassa feita no distrito do Rio Preto, em um sítio onde se encontrou moedas falsas muito antigas, sendo estas recolhidas à Tesouraria Geral.

Pela devassa e exame a qual procedi sobre a descoberta de moedas no distrito do Rio Preto, nada mais se depreende de ter havido naquele sítio Casa de Moeda Falsa muito antiga, como V. Exa. verá pela data das mesmas moedas que foram incluídas na atual remessa. Dirijo à presença de V. Exa para serem depois recolhidas depois à Tesouraria Geral. Acham-se nos cofres desta Intendência vários depósitos amortizados há mais de trinta anos, há outros de menos tempo, procedidos de moedas confiscadas. E outros de diferente natureza que pelo seu respeito e por terem falecido talvez às pessoas a quem pertenciam, estão aqui em esquecimento e podem se utilizar na massa geral da Real Fazenda sem risco de se extraviarem. Queira portanto V. Exa. mandar-me ordem para serem recolhidos à Tesouraria  Geral onde os considero com menor risco para se juntar aos Autos da Ordem e assinar nos mesmos o condutor na entrega das referidas quantias amortizadas, sem a qual formalidade eu não posso arrematar a sobredita ordem, bem como outra que por utilidade do Real Serviço e dos oficiais desta Casa, rogo à V. Exa. que sempre nas remessas dos Quintos os mais interesse servir para esta capital, sejam nomeados privativamente dois soldados dos que se acham no serviço desta Intendência, aprovados por mim como dantes se havia praticado por estar sempre prontos como é necessário, como também porque o condutor assina nos livros a entrega do que se toma conta, ficando aqui responsável a dar a mesma conta com os totais conhecimentos das quantias as quais foi encarregado, de toda e qualquer falta que acontecer, o que não se pode verificar de outra sorte sem maior incômodo, ficando rendido na praça o condutor e seu companheiro e os oficiais desta Casa a providência de que tendo o privilégio de cobrar com o avanço dos seus ordenados, se lhe retarda por outro modo o seu pagamento, sentindo ele e as suas famílias o incomodo que há consequentemente, além de ser inútil o seu privilégio. Espero que V. Exa., persuadida dos motivos ponderados, queira assentir as minhas rogativas, mandando com a brevidade possível se passem as ordens tanto para a remessa dos depósito como ficam exposto, como ao comandante do destacamento desta Vila, sobre a nomeação dos soldados que devem conduzir as remessas, fazendo V. Exa. constar o que ordenar a esse respeito para o meu governo e para poder tudo executar na atual, o que devo partir nesse mesmo. Deus guarde V. Exa., São João Del-Rey, 4 de janeiro de 1804.

Dirigido ao governador e capitão general da capitania de Minas, Pedro Maria Xavier de Athaíde e Mello.

Quem assina é o intendente Joaquim José Soares de Araújo.”

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    Por todo o exposto, o presente documento surge como um dos registros históricos descobertos mais importantes para a região do Vale do Rio Preto. Não só pela antiguidade, mas também pelo teor do documento, que indubitavelmente insere Rio Preto como um dos municípios mais emblemáticos para o ciclo do ouro na região, no estado e no país. Afinal, o município ao longo desse período abrigou movimentadas rotas de contrabando do ouro, uma casa de moeda falsa e também um dos últimos e mais expressivos descobertos auríferos de Minas Gerais!


*Rodrigo Magalhães, pesquisador e historiador riopretano

[1] ARQUIVO PÚBLICO MINEIRO. Secretaria de Governo da Capitania. Seção Colonial. SG-CX 59-DOC 03.

[2] A Casa de Moeda Falsa do Paraopeba - https://pt.wikipedia.org/.../Casa_de_Moeda_falsa_do...

[3] MOEDAS FALSAS E NEGÓCIOS: O TERRITÓRIO DO LÍCITO E DO ILÍCITO NAS MINAS SETECENTISTAS- PDF -André Rezende Guimarães - Mestrando em História Departamento de História, FAFICH, UFMG.

[4] CINTRA, Sebastião de Oliveira. Efemérides de São João del-Rei.  Vol. I, p. 136.

[5] Intendente era o responsável pela arrecadação; como se fosse um secretário da Fazenda que cuidava das finanças do município.

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